- por Ugo Medeiros, Colaborador SBB
“O bom filho à casa torna”, já diz o ditado. Sem tocar no Rio de Janeiro, sua terra natal, desde 2004, Celso Blues Boy, considerado o primeiro bluesman brasileiro, retornou aos palcos da casa que lhe consagrou: o Circo Voador. Após 3 anos longe da Cidade Maravilhosa, o guitarrista voltou a alegrar seus fãs, levando-os ao delírio. Autor de grandes clássicos do Rock brasileiro e detentor de uma técnica e um feeling invejáveis, cuja as marcas registradas são a pegada pesada, com notas cheias de sentimento que mais parecem um choro ecstasiante, e sua voz inconfudível mostram o porque sua carreira é um sucesso no Brasil e exterior.
Na Estrada, em sua carreira solo, desde 84 com discos de sucesso como “Som na Guitarra” e “Marginal Blues”, o mestre da guitarra deu novamente mais uma aula de como lidar com o Rock n Roll. Com uma larga experiência e levando na bagagem parcerias como Raul Seixas, Cazuza e BB King, o carioca mostrou que a idade não é uma barreira aos que são devotos da boa música.
Numa noite em que caiu uma tempestade como há tempos não se via, a Lapa respirou novamente Blues-Rock de qualidade. Os fortes ventos e o frio, que o carioca não está acostumado, não serviram de desculpa para faltar a apresentação de um dos maiores guitarristas do país. Uma legião de fãs (que seria ainda maior não fosse o fato da cidade estar debaixo d’água) pôde deliciar-se com um clima tipicamente blueseiro. A abertura ficou por conta da dupla Eduardo Gemmal e Rodrigo Muniz, que lideram o projeto “As terças do Blues”: um projeto de voz e violão acústico. Tocando clássicos do Blues americano, passando desde Robert Johnson, Elvis Presley, Johnny Cash e BB King, o público pôde sentir-se num bar de estrada do Sul dos EUA.
Aos poucos a platéia chegava com a esperança de escutar músicas como “Marginal”, “Tempos difíceis” e “Aumenta que isso ai é Rock’n’Roll”. Ao apagar das luzes e a primeira nota gritar, todos entraram em um estado de felicidade e saudosismo coletivo. Com sua apresentação refinada, como de costume, o Circo Voador foi transportado para o meado dos anos 80. A emoção era tanta que mesmo tendo problemas técnicos, por duas vezes, o público não perdeu o entusiasmo e continuou cantando sozinho, mesmo sem o acompanhamento da banda.
Além dos grandes hits, Celso também pôde mostrar 2 composições novas: “A casa da luz vermelha” e “Quem foi que falou?”. A primeira um slow blues ao estilo do seu mestre e amigo BB King, e a segunda, um rock n roll encorpado, sem medo de colocar peso na parte instrumental e com um refrão emocionante (“Quem foi que falou que acabou o rock n roll?!”).
Mais uma vez, Celso Blues Boy impõe-se no mundo do Rock n Roll como um dos maiores nomes e mostra que no Brasil também há espaço para esse estilo musical. Consegue quebrar o preconceito de que Rock e Blues apenas são bem executados por “gringos”.
Entrevista Celso Blues Boy:Como se deu o seu primeiro contato com o Blues?Eu sou carioca, mas na época morava no interior, em Blumenau. Lá não tinha muito o que fazer, não tinha televisão. Eu tinha um tio-avô que morava aqui no Rio de Janeiro e que viajou aos EUA. Mesmo não entendendo nada de música, comprou 50 LP’s indicados pelo vendedor; dentre esses, tinha de um “negão” que eu gostei e ficava escutando na minha vitrolinha de pilha. Anos depois fui saber que aquele “negão” era o BB King, e que aquilo se chamava Blues.
Há inúmeros guitarristas de Blues, desde Robert Johnson, BB King, JJ Cale, Buddy Guy, Eric Clapton, entre outros. Qual você considera o mais importante para a sua formação?
Acredito que tenha sido BB King, Freddie King, Roy Buchnan, Eric Clapton e Rory Gallagher. Acho que esses tenham sido os mais importantes.
Você pôde participar de duas bandas na década de 70, o Legião Estrangeira e o Aero Blues. Como foi essa experiência? Como era, naquela época, participar de uma banda de Rock e Blues, no Brasil?No caso do Aero Blues, foi a banda que tocava no primeiro Pub de Blues do Brasil (Apaloosa, em Copacabana). Era uma loucura pois tocávamos de terça-feira a domingo, descando apenas na segunda. Tinham vezes que fazíamos 3 ou 4 shows numa sexta-feira ou sábado à noite; a casa ficava lotada. Foi quando apareceu pela primeira vez o cenário Blues brasileiro. A Legião Estrangeira, que veio antes, era uma banda de Hard-Rock, mas que fazia alguma coisa de Blues, que até então ninguém tocava. Pode-se falar que era um Hard-Blues. Foi uma experiência muito legal, pois a banda era praticamente eu e mais dois. Tocava com os músicos da época, como Raul Seixas. Nós tocávamos e parávamos. Quando saímos em turnê, às vezes tínhamos que trocar de músico; um ou outro saía. A formação não era sempre a mesma... Dessa forma conseguimos um sucesso que para a época era muito difícil, e juntamente uma legião de fãs. Nós fazíamos shows no Teatro da Praia em plena segunda-feira e enchia! Era muito legal.
Em 84 veio o primeiro LP, Som na Guitarra, e junto o reconhecimento da mídia. Como foi tornar-se o grande nome do Blues brasileiro?Eu nunca me considerei como um nome do Blues brasileiro. Acontece que naquela época não havia ninguém de Blues. Eu estorei com um Rock’n’Roll no começo do Movimento Rock Brasil. Ali ninguém tinha sucesso, mas apenas um único sucesso, devido ao pouco tempo que essas bandas haviam entrado para a “mídia grande”. O Paralamas do Sucesso tinha apenas uma música; assim como o Titãs. Mas quando iam ao meu show, diziam que eu tocava um blues-rock. A partir disso e do meu nome “Celso Blues Boy”, começou-se a criar um cenário de Blues no Brasil e um público específico ao final dos anos 80, que não é o meu caso... Eu atinjo aqueles que curtem o Blues e o Rock.
Você é amigo do BB King. Como nasceu essa amizade?Eu fui entrevistá-lo, como convidado, para uma revista, de guitarrista para guitarrista. Na época eu já estava com bastante sucesso, estava no meu segundo LP. Durante a coletiva colocaram-me pra falar com ele; também colocaram os LP’s para ele escutar. Ele ouviu e gostou. Dos três shows que fez, pude ir apenas no último. Neste, a produção reservou um acento perto do palco. De repente ele me chama para tocar e o público vai ao delírio. Após o show, me elogiou bastante e convidou para fazer uma carreira solo nos EUA. Eu não queria e não poderia fazer devido aos contratos e à agenda de shows que tinha. A partir ficamos amigos: tocamos em vários lugares, como no Festivalde Montreaux, em Paris, no Brasil, etc...
Como você vê o cenário do Blues brasileiro hoje em dia? Ainda tem muito o que melhorar?O grande problema do cenário Blues é que há pouco trabalho autoral. Falemos sério: se você pega uma banda de blues e toca basicamente aquele “quadrado” de Blues, coloca uma letra em inglês e diz que a música é dele, não ficará algo muito original. Será algo semelhante à qualquer música que se escuta num CD de Blues americano...
Dessa nova geração de Blues brasileiro quem te chama mais atenção?Eu não poderia dizer que é da nova geração. Mas, pelo menos pra mim, é nova: Jefferson Gonçalves. Ele tem conseguido destacar-se com muita originalidade.
Você tem planos de gravar um CD novo?Eu já tenho um CD gravado. Na verdade, nem gosto de falar sobre isso pois ultimamente tem dado problemas: ia lançar dois CD’s, mas na hora de assinar o contrato acabou não concretizando-se. Dessa vez tudo indica que dará certo e será lançado este ano, pelo menos é o que diz meu empresário (risos).
Após mais de 20 anos de uma carreira de sucesso, você sente-se realizado musicalmente?Bastante. Tudo o que eu tenho na minha vida, quem deu foi a música. Nunca ganhei nada. Desde os 16/17 anos tudo o que ganhei foi graças à guitarra. Todas as metas que tracei no começo, foram cumpridas e até outras que nunca havia pensado. Meu trabalho está bem feito, mas não quer dizer que esteja terminado.
Hoje em dia se você pudesse escolher algum músico para fazer uma parceria no palco, quem seria?Por mais que o BB King já esteja cansado, tocar com ele é muito bom...
Qual a importância do Circo Voador para a sua carreira?Você viu a propaganda do show? Leu o que estava escrito embaixo? Estava escrito: “Celso Blues Boy em casa”. Diz tudo né?! Eu sou o recordista de apresentações e de público. Aqui eu realmente sinto-me em casa.