29 de Setembro de 2007

Entrevista com gaitista Jefferson Gonçalves


Por Ugo Medeiros, Colaborador da SBB

SBB - Você sempre tocou gaita?
Jefferson Gonçalves – Eu só sei tocar gaita. Gosto de outros instrumentos de sopro, como flauta e pife. Mas apenas toco gaita...

Quando começou esta atração pela gaita?
Sempre gostei desde novo. Escutava Bob Dylan, Neil Young e Jethro Tull (o fato de ter uma flauta). Sempre fui ligado ao Rock and Roll, Folk e até à música nordestina (gosto muito de bandas de pífes). Mas quando tive a coragem de comprar o meu primeiro instrumento, foi a gaita. Comecei a tocar aos 20 anos, mas gosto de música desde os meus 10 anos.

O Charles Musselwhite é uma grande influência na sua formação musical?
Eu gosto da sua música, mas não é a minha influência como gaitista. Já escutei muito o trabalho dele, mas eu não tenho muito do estilo dele. A minha maior influência na gaita diatônica foi Little Walter e Sonny Terry e na cromática Toots Thielemans e Maurício Einhorn, além de muita coisa de bandas de pífano.

Você fez parte de uma banda que fez história no Rio de Janeiro, o Baseado em Blues. Como você analisa sua participação nessa banda?
O Baseado em Blues foi a minha primeira banda. Na época eu tinha acabado de terminar a aula com o Flávio Guimarães e Zé da Gaita. Eu arrumei um show para o Zé; então ele me mandou formar uma banda e abrir o show. Assim nasceu o Baseado em Blues. Ficamos 14 anos na estrada rodando o Brasil. Nós eramos muito inexperiente, e aprendemos no palco; a banda aprendia junto a como se portar. Aprendemos muito. Foi a banda que me colocou no mundo da música. Se não fosse pela banda, não estaria dando esta entrevista. Graças ao Baseado em Blues estou no mercado. Infelizmente a banda acabou, mas hoje cada membro segue sua vida com o aprendizado que tivemos na estrada, seja em outras bandas ou acompanhando outros artistas, eu mesmo levei esse aprendizado para o meu trabalho solo...

Atualmente a sua carreira solo toma novas vertentes. Um som com influências nordestinas, sonoridades regionais. De onde vem isso?
Esta influência veio desde novo. Se você for ver minha discografia, eu tenho de música clássica à Blues, música nordestina, banda de pau e corda, banda de pife, etc... Gosto de estudar o rítmo. Sempre procurei tocar gaita percusivamente. A música brasileira, principalmente a nordestina, é uma das mais ricas ritmicamente. Encaixa muito dentro da gaita; é possível pegar muita coisa de sanfona e pife e transportar pra gaita. Comecei a ver uma ligação. Acho que essa mistura está dando certo...

Você tem um projeto paralelo com o Big Joe Manfra, o Blues Etc. Comente.
Gravamos um CD, viajamos quase todo o Brasil. Infelizmente teve que parar pois o vocalista, Pedro Quental, casou-se com uma pernambucana e agora mora em Recife. A banda está parada até encontrar alguém para o lugar dele. Tem muita gente cantando tão bem quanto ele, mas tem que haver a química: bom astral no estúdio, no palco, nas viagens... Não é apenas tocar. Não queremos colocar alguém apenas para ganhar dinheiro; se for assim, há o risco de acabar a magia que foi o Blues Etc. Começamos tocando em bar, de brincadeira. Acabou dando certo e gravamos um CD. Temos que manter essa filosofia. Este ano ainda devemos voltar com o Blues ETC., mas com outra pessoa cantando, fizemos alguns shows com essa pessoa e deu certo. Se tudo correr bem gravaremos um novo CD.
O próximo álbum será ligado ao Blues mais tradicional, mais acústico.

Você acabou de fazer uma Tour com o Big Gílson na Europa. O estrangeiro está começando a respeitar os bluesmans brasileiros?
Não apenas os músicos de blues, mas de qualquer estilo! Música instrumental logo é associada ao Naná Vasconcelos, Hamilton de Holanda, Carlos Malta. Entre outros. No mundo da gaita todos falam do Maurício Einhorn. Eles conhecem Fernando Noronha! A nossa música não deixa nada a desejar. Temos uma vantagem: o swing e a rítmica. Eles acham legal que a gente não toque aquele blues tradicional. É impossível, temos que tocar da nossa forma com um toque de swing. Fomos muito bem recebidos. Foi a minha primeira tour pela Europa, gostei muito.

Você faz uma análise positiva ou negativa do cenário de blues brasileiro atual?
O blues assim como a música instrumental nunca vai acabar. Está sempre resistindo. No Brasil, teve altos e baixos, desde que eu comecei a tocar. Tinha época em que o Rio de Janeiro tinha um forte circuito de blues no Circo Voador. Agora parou um pouco. Há muitos festivais pelo Brasil afora como de Rio das Ostras, o de Guaramiranga e muitos outros no Nordeste. A agenda de blues e instrumental está sempre lotada. Às vezes temos que nos adaptar: viajar com a banda completa, ou tocar em trio ou sozinho mesmo. São poucas as bandas que se mantêm como o Blues Etílicos. É muito difícil manter a formação original. O custo é alto, o que acaba nos obrigando a adequar às exigências do mercado. Mas o blues nunca acabará. Ao contrário, está sempre se renovando, aparecendo caras novas. O festival de Rio das Ostras comprova isto: está em sua 5ª edição, cada vez maior e melhor.

A criação da Blues Time, é uma esperança ao Blues brasileiro?
Não sou sócio, sou apenas um músico da Blues Time. O Manfra montou o selo e eu apenas o ajudei com alguns contatos: Peter Madcat, Jamie Wood, Big Gílson, etc... É mais um selo que agora está sendo distribuído pela Tratore. Fico feliz pois está tendo boa aceitação. É a luta diária, vencendo um leão a cada dia. Um selo pequeno, mas que dá valor ao Blues.

Há algumas semanas entrevistei o Celso Blues Boy. Perguntei quem seria o nome de maior destaque da nova geração. Não hesitou em responder que era você. Como sente-se ao escutar do mestre do Blues brasileiro?
Temos uma relação de amizade muito forte. A primeira vez que toquei no Circo Voador, foi na banda dele. O engraçado é que ele não gosta de gaitista, mas ele gosta de como me encaixo no trabalho dele. Vai ver porque eu também sou vascaíno. É claro que fico lisongeado. Ligarei para ele e agradecerei (risos).

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