23 de janeiro de 2009

Olá, eu sou o Kenji


Vou contar a história assim, como nos filmes, começando com uma cena que antecede o final, o "teaser", para contar logo em seguida a história toda e fechar com o final cronológico que é agora. :-)

Alguns dias atrás, eu vi no twitter uma moça comentando que a SBB estava fazendo muitos anos de existência. Aproveitei então para dar um pulo no blog e fazer um comentário. Quando assustei, tinham me convidado para escrever neste blog. Cá estou.

Meu nome é Leonardo Kenji, tenho 33 anos, mas minha história com o blues começou aos 14, quando ouvi um K7 com uma música do Buddy Guy que mudou a minha vida. Ou pelo menos me revelou o que ela seria dali em diante.

Naquela época não tinha internet. Podemos resumir as coisas assim. Quando tinha e quando não tinha internet. A internet trouxe velocidade às coisas. E trouxe volume também.

Em 1994, eu entrei pro curso de computação da UFMG, onde tínhamos algo que até então era reservado a poucos: internet. E algo mais raro ainda. Espaço para manter uma página na web. Coloquei no ar, nesta época, o que acho que foi a segunda página da web brasileira sobre blues feito no Brasil.

A página, que se chamava "everyday I have the blues", nada mais era que uma grande lista de links para sites de bandas de blues nacionais. Já eram muitas naquela época, mas nem chegam aos pés da quantidade de bandas que existem hoje. O Blues Etílicos desbravava o mercado de blues no Brasil e as pessoas se surpreendiam com a diatônica magistralmente tocada pelo Flávio Guimarães.

Não me lembro se em seguida ou se ao mesmo tempo, surgiu o nome do Bruno Genovese e um site organizado e dedicado a listar e organizar bares, bandas e tudo o que era relacionado ao blues no Brasil, me livrando de ter este trabalho, e ainda por cima, fazendo-o melhor do que eu poderia ;-). Começou aí minha admiração pelo SBB.

Aí muitos anos se passaram, eu me envolvi com o movimento gaita-list, que era uma mailing list nacional de gaitistas que rapidamente evoluiu para uma comunidade de verdade, com gentes de todos os estados viajando para se encontrar uns com os outros e estreitar laços reais e duradouros de amizade, sob o pretexto de organizar shows, cds artesanais, trocar informações, idéias e cds, ajudar os iniciantes, e todos os et ceteras maravilhosos que surgem dos bons ideais.

Helton Ribeiro atacava pela imprensa profissional, com seu folhetim black and blues, que rapidamente evoluiu para uma publicação modesta, porém de qualidade, a Blues and Jazz. Na outra ponta, Chico Blues, que começou como um colecionador de cds de blues, rapidamente se tornou também um produtor cultural, articulando com outros artistas um dos mais importantes festivais anuais de blues em SP.

E várias outras figuras foram surgindo e não vamos ter tempo de ser justos e citar todos e suas importâncias pro cenário. A internet evoluiu e se tornou a chamada "web 2.0", que na melhor definição que eu já ouvi, se definia como "o momento em que as pessoas resolveram subir mais coisas prá web do que baixar" ;-) Ela não só chegou ao grande público, mas o grande público a transformou num grande espaço de sociabilização virtual, que é um bom passo para o que realmente interessa que é a sociabilização real.

Digo que realmente interessa pq é na sociabilização real que as mensagens possuem menos ruídos e onde gente que antes brigava por e-mail, percebe que, ao vivo e à cores, na proximidade física de um com o outro, nós não queremos realmente nos agredir. Lição que o Pateta, no inesquecível desenho animado "Sr. Motorista" (Mr. Wheel), já nos mostrava que basta entrarmos num carro, aquela couraça de aço, e entrarmos no trânsito que estaremos a uma distância suficiente que nos torne hostis uns com os outros. Que dizer da web, onde além da distância muito maior, temos a anonimicidade.

Então minha mensagem ao SBB é meu voto, meu sonho, de que se concretize cada vez mais fora da web. Como ponto de encontro de pessoas que comungam um gosto comum, e que não percam a oportunidade e a aventura que é conhecer o outro.

Hoje em dia (não prometi um final "de filme"?), do alto da minha caixa de sabão dos meus 33 anos, me vejo grávido de minha filha Teresa, que está para nascer em Abril, totalmente absorvido no meu trabalho e em minha pós em marketing, num mundo inserido numa recessão que só irá começar a se reverter em 2010 (sendo otimista), sem encostar nas gaitas e nem pensar em bandas ou em organizar eventos de gaita ou de blues. Deixei isso para as próximas gerações, que eu sei que irão se sair muito bem nestas tarefas.

Agora mesmo, à noite, voltei de um show de uma banda de moleques que tocam um folk-rock que achei surpreendente. Como a maioria das bandas que estão começando, são despretensiosos, mas tocam o que gostam. Erram, desafinam, brincam no palco. Na platéia, muitos amigos e muita gente da família, dando aquele apoio no primeiro show. Isso nunca vai mudar. Eles devem ter uma página no myspace e devem baixar toneladas de músicas e letras pela web. Irão perceber rapidamente a importância de fazer um bom networking.

Irão se empolgar e não vão necessariamente querer mudar o mundo radicalmente, mas pelo menos estarão tocando para um mundo onde o presidente é o Obama e não o Bush. Não que o Obama fará milagres, não fará.

Mas ele fechou Guantánamo. E disso eu gostei muito.

Então, como dizia o Gonzaguinha, eu tenho fé na rapaziada.

Longa vida ao Blues, e longa vida às pessoas que fazem a coisa acontecer.

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